Eu o conheci há aproximadamente 18 anos atrás. Na época, o Sr. João* tinha 66 anos e esbanjava vitalidade. Cheio de orgulho, estufava o peito para dizer que tinha todos os dentes naturais e cuidava com muito zelo, fazendo suas visitas regulares para acompanhamento e profilaxia. Nosso relacionamento ultrapassava as paredes do consultório pois ele sempre se referia a mim como neta do coração.
A cada 2 meses ele dava o ar da graça pois, gentilmente, acompanhava sua esposa Joana* à loja de aparelho auditivo localizada no andar de cima do consultório. Sempre chegava, tomava um assento na recepção para um dedo de prosa. Dizia que aproveitava para matar a saudade, descansar as pernas e beber água. Uma simpatia!
Tantas histórias ele compartilhou sobre os filhos, netos, desafios que viveu, atividades na igreja e reformas na casa. E esse hábito perdurou por aproximadamente 16 anos.
Até que inesperadamente ele sumiu!!!
Liguei várias vezes, procurei no endereço cadastrado na ficha e nada. A casa sempre fechada e ninguém atendia o telefone. Então, numa quarta-feira, sua esposa apareceu acompanhada de uma vizinha para ir à loja de aparelho auditivo. Eu estava em atendimento e ela aguardou para falar comigo.
Tão logo terminei o procedimento, ela abriu os braços com os olhos marejados e me deu um longo abraço. A notícia em seguida me deixou sem reação, me doeu no fundo do peito. Sr. João* descobriu uma doença em estágio avançado e esteve hospitalizado por alguns meses. Tudo aconteceu muito rápido, sem explicação.
Como assim?
“Como assim? Ele sempre alegre, forte, animado com tantas coisas? ” Era a pergunta que fazia a mim mesma…
Dona Joana me relatou que ele teve alta para passar os últimos dias em casa pois não havia mais o que fazer e que manifestou um desejo de me ver. Eu prontamente confirmei o endereço cadastrado e marquei de ir no final de semana. Aquela triste notícia não saiu da minha cabeça enquanto aguardava o dia para visitar meu amigo.
Chegando lá, estava a família reunida – todos os filhos, netos e eu. Me senti privilegiada por estar naquele seleto grupo de pessoas que ele amava. Quando entrei no quarto me deparei com aquele sorriso acolhedor, do alto dos seus 83 anos, já sem forças e sem fala, apertou a minha mão e mandou um beijo.
Fiquei por alguns minutos conversando e o Sr. João* apenas assentia com a cabeça. Tantas lembranças me vieram à mente naquele breve momento. Uma vida preciosa que tive o prazer de conviver.
Eu fui sua última visita. Pouco tempo depois que saí, ele se foi deixando saudade do sorriso fácil, das histórias e da amizade que plantou em mim.
A rotina na Restaurar Odontologia é sempre assim, cheias de encontros e despedidas. Fazemos questão de criar vínculos! Mais do que cuidar de dentes, amamos cuidar de pessoas!
* A fim de proteger a identidade dos nossos pacientes, os nomes foram substituídos por nomes fictícios.
