Estávamos em meados de junho de 2011… Fazia frio em BH, mas eu passava por um misto de sensações térmicas, grávida de 36 semanas.
Mãe de primeira viagem, achava que tinha super poderes e queria dar conta de tudo. Mas, confesso que, os aparatos de biossegurança – máscara, jaleco, touca, luvas – como também a luz do refletor, me deixavam de certa forma sufocada.
Já não tinha posição para executar todos os procedimentos com ergonomia e o bebê não parava de reclamar dando belos chutes quando se sentia pressionando entre a cadeira e eu.
Em meio a um atendimento muito trabalhoso me senti mal. Realmente precisava tomar um ar. Pedi licença ao paciente, me levantei e perguntei se poderia me dar 15 minutos. Tirei toda a minha “armadura” e saí para esticar as pernas.
“Não vou dar conta.”
Quando abri a porta da sala de consulta, me deparei com a recepção lotada e cinco pessoas aguardado para serem atendidas. Senti um arrepio no corpo e pensei “não vou dar conta”. Havia uma emergência, dois pacientes agendados e dois encaixes. Todos sabiam que brevemente eu iria interromper os atendimentos por um período e queriam dar aquela “olhadinha”.
Já estava atrasada com as consultas, logo eu que sustento o apelido de “parente da rainha” pela minha pontualidade britânica. Se tem uma coisa que me dá tic tic nervoso é o atraso.
Vendo aquela cena na recepção, todos se levantaram e a secretária perguntou: “Está passando mal?” Respondi que precisava somente tomar um ar e que me dessem 15 minutos. Saí para dar uma esticada na calçada. Não demorou nada e todos vieram com seus conhecimentos dar uma opinião sobre o estado de saúde da Doutora, inclusive aquele que estava sendo atendido por mim há poucos minutos.
Meus vizinhos do comércio, se tornaram amigos, afinal já tínhamos quase onze anos de convivência no mesmo local de trabalho. Eles andavam monitorando meu vai e vem e me oferecido seus préstimos caso algo anormal acontecesse. Se juntaram ao bolinho de pessoas ao meu redor e começou a aglomeração.
“Vou chamar o SAMU, não sei fazer parto!”
Um disse: “Alguém tem que levá-la embora!”, outro opinou: “Tem que ligar para o marido!” e a secretária, mais preocupada do que todos, já com minha bolsa na mão, falou assim: “Denise, o bebê está nascendo? Vou chamar o SAMU, não sei fazer parto!”.
A gargalhada foi geral. Eu precisava somente tomar um ar e esticar as pernas. O que estava difícil com tanta gente ao redor. Falei com todos que podiam retornar aos respectivos afazeres que eu estava só aliviando um pouco para finalizar o trabalho. Todos seriam atendidos. Meio duvidosos me deram os benditos 15 minutos. Ninguém foi embora aguardando o desfecho da situação.
Meu plano traçado para o consultório era terminar todos os tratamentos iniciados. Me restavam duas semanas e não queria deixar ninguém com procedimentos pendentes. Retornei ao atendimento e expliquei para todos que tivessem um pouco de paciência quanto ao horário, eu atenderia cada um no tempo hábil. Aqueles pacientes foram bem pacientes.
E assim foi, terminamos um pouco mais tarde em relação ao horário habitual. Mas eles, e principalmente eu, sentimos o cuidado de Deus conosco.
Naqueles dias eu estava vivendo o fim de um ciclo na minha vida pessoal e prestes a encarar, de fato, os desafios da maternidade. Muitos pacientes acompanharam esse processo e acompanham até hoje, sempre com ar de torcida. E assim seguimos… O consultório é como um filho. Traçamos objetivos, providenciamos uma roupagem nova, cuidamos para que tudo vá bem. E isso tudo para que no final, possamos ter uma história feliz para contar, como essa que acabei de relatar.
